Contactos Escola Segura História Instalações Oferta Educativa Patrono
// Patrono
Nasceu em 1903 em Mirandela, e aí fez a Primária, Viveu em seguida em Guimarães, onde frequentou o Curso Geral de Liceus como interno da Escola Académica, e em Vila Real, onde completou o Curso Complementar. Aos 18 anos era já aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Trigo Negreiros, então finalista e depois Ministro do Interior de Salazar, foi quem lhe valeu e protegeu de muitas rapadelas enquanto caloiro.

A amizade entre ambos consolidou-se de tal maneira que, mais tarde, os amigos se admiravam, visto Manuel Gomes de Almeida defender ideais diametralmente opostos.

Em Coimbra residiu numa República. Após a sua formatura, fixou-se em Espinho e abriu consultório na rua 8 chamada Rua do Dr. Manuel Gomes de Almeida logo após o 25 de abril, onde hoje é a sede do Sporting de Espinho.

Todavia, algo insatisfeito, chegou a inscrever-se como voluntário no Curso de Direito em Coimbra, contrariando vivamente os conselhos de sua Mãe.

Os seus dotes oratórios mereceram-lhe ser indigitado para, juntamente com Ângelo César, aluno de Direito, apresentar o Orfeão de Coimbra nas suas digressões pelo Brasil, Espanha e França, onde teve a honra de posar, junto do Arco do Triunfo, com Afonso Costa e o General Foch, herói da 1ª Guerra Mundial. Tinha um ouvido péssimo, e não dava uma nota. Este facto tê-lo-á impedido de ser fluente em Inglês, muito embora fosse um excelente leitor de revistas inglesas da especialidade e tivesse escrito numerosos artigos naquela língua para publicações de circulação internacional.

Frequentemente deslocava-se a lugares remotos, tendo, uma vez chegado a fazer um parto em Silvalde de guarda chuva aberto. Já nessa altura nem o deixavam tomar o seu café calmamente, tendo sido muitas vezes solicitado por telefone quando se encontrava no "Café Chinês" ou no "O Nosso Café".

Com 26 anos, já fortemente enraizado e estabelecido em Espinho, decidiu alugar uma casa da Brandão Gomes para instalar uma Casa de Saúde. "Está maluco," disseram os Pais, «onde vais buscar tanto dinheiro? Isso só dá daqui a dez anos!» Decidido, Manuel Gomes de Almeida avançou com o projeto e logo comprou mobílias modestas e instalou uma sala de espera, um consultório, uma sala para o equipamento e uma sala para pensos. Para operar convidara o seu Padrinho de casamento, Dr. Bissaia Barreto, que, pouco tempo depois, e sempre que necessário, costumava chegar de madrugada, com toda a parafernália esterilizada em cestos próprios. Aos seus assistentes ensinava tudo o que sabia.

Ao tomar conhecimento dos avanços tecnológicos introduzidos no Hospital de S. José e na mira do constante aperfeiçoamento profissional, contactou com Costa Félix, Parteiro naquele Hospital, que o apresentou a Mário Carmona, seu Diretor. A simpatia foi instantânea, e cedo este se convenceu das reais capacidades de Manuel Gomes de Almeida como cirurgião e admitiu-o como interno.

Durante o ano que passou no Hospital de S. José, Gomes de Almeida aumentou consideravelmente a sua bagagem profissional. Simultaneamente, continuava a devorar livros, que estudava minuciosamente, marcando, a lápis vermelho, as margens das páginas para posterior recapitulação.
De regresso a Espinho, Manuel Gomes de Almeida enfrentou pela primeira vez o desafio de operar sozinho: um apêndice. Na altura, uma atmosfera tensa pairava na Casa de Saúde. Pouco tempo depois, saía da sala de operações e, radiante, dava um abraço à esposa dizendo:"Correu lindamente".

A fama de exímio cirurgião rapidamente se espalhou, e passou a ser chamado para operar de urgência em Barcelos, Guimarães, Santo Tirso, Chaves e Valpaços.

Tentou, entretanto, entrar para o quadro do Hospital de Santo António. Todavia o concurso viria a ser viciado, muito provavelmente devido às suas atitudes públicas contra o regime de Salazar.

No Dr. Manuel Gomes de Almeida nunca estancou a sede do saber nem a aventura do desconhecido, da experimentação. Estabeleceu um protocolo com o então Presidente da Câmara do Porto no sentido da Câmara lhe enviar cães, apanhados na rede e para abate, para neles fazer testes. Para isso providenciou no quintal da Casa de Saúde uma série de casotas, onde instalava os cães logo que chegavam. Tratava-os como verdadeiros seres humanos e passava infindáveis serões com dois assistentes a operar e a fazer testes nos cães.

A partir de certa altura, ir à América e fazer um estágio tornou-se-lhe uma autêntica obsessão. Após detalhada busca de informações e prolongada correspondência com hospitais americanos, viu o seu sonho concretizar-se na Clínica Mayo.
Das Recordações desta altura, costumava contar o seguinte episódio picaresco. Um dia, estando a almoçar na cantina da clínica, ouvira falar português e, julgando tratar-se de colegas, dirigira-se-lhes calorosamente. Descobrira afinal que eles eram apenas trabalhadores que, para ultrapassar as suas dificuldades, tinham há muito descoberto uma maneira fácil e inteligente de, envergando imaculadas batas, comer de borla. A busca do aperfeiçoamento e da excelência fizeram-no regressar à América, onde, entre 1 de novembro de 1952 e 20 de maio de 1953 estagiou na Charles Bailey Thoracic Clinic e no Hahemann Hospital, ambos em Filadélfia. Consigo levava a promessa do então Ministro do Interior, Trigo Negreiros, de ter, no regresso, um serviço montado no St.º António.

Depois da operação que, pela primeira vez, foi autorizado a assistir o Dr. Bailey, Manuel Gomes de Almeida teve de limpar o equipamento e o chão. Pouco tempo depois, era assistente do Dr. Bailey, que nele vira a categoria, a vontade e a competência de um futuro cirurgião. Não demorou, portanto, a ser promovido a chefe de equipa de operações cárdio-vasculares. Do relatório assinado por Raymond Leopold, do Conselho da Educação Médica do estado da Pennsylvania, consta o seguinte: "O seu trabalho atento e inteligente foi eminentemente satisfatório, e adquiriu um conhecimento extenso e intensivo da cirurgia torácica, muito especialmente na cirurgia coronária, na cateterização e na cirurgia cardíaca experimental."

A sua segunda estadia nos Estados Unidos coincidiu com a morte da sua Mãe, de que teve notícia por telefonema da esposa. Na altura estava em plena operação, e teve que se ausentar para atender a chamada. O jornalista Norberto Lopes, que por coincidência tinha sido convidado a observar Manuel Gomes de Almeida a operar, referir-se-ia mais tarde a esta cena num dos seus livros.

De regresso a Portugal, inaugurou, como estava prometido, o Serviço Cardiovascular do Hospital de S.to António, de que foi seu Diretor. Posteriormente foi cirurgião no Conde de Ferreira, tendo ainda fundado o Hospital de Gaia e sido seu Diretor, bem como do Hospital de Espinho, na altura na esquina da Rua 8 com a 11. Publicou, entretanto, dois livros, um sobre o coração e outro sobre o cancro do estômago.

Coração, estômago e ossos não tinham segredos para Manuel Gomes de Almeida, que operava os pobres graciosamente, pagando, independentemente disso o anestesista do Porto.

Esteve sempre contra o regime salazarista, e contribuiu generosamente para o MUD. Muitos dos seus doentes foram por ele tratados clandestinamente. Nomes sonantes da Oposição ao Salazarismo contavam-se entre os seus amigos, nomeadamente Henrique Galvão, Maria Lamas e Hemídio Guerreiro. Aliás, o seu espírito sempre jovem fazia-o envolver-se em discussões com jovens estudantes em férias no Gerês.

Um acontecimento, em 4 de julho de 1942, abalou profundamente Espinho. Um agente da PIDE, disfarçado de mulher, conseguiu furar o acordo de segurança popular que defendia a casa do Dr. Ferreira Soares em Nogueira, e matou-o a tiro. Esse agente, já despojado do disfarce, trouxe o "ferido" para o Dr. Manuel Gomes de Almeida o tratar. Perante o seu estado, Gomes de Almeida disse: "Não é para curar, é para passar uma certidão de óbito". Profundamente chocado com o acontecimento, Manuel Gomes de Almeida terá confessado, exaltado, ter sido sua vontade, na altura, ter feito o mesmo ao agente.

A 14 de agosto de 1972 morria este grande Homem. Nos seus últimos momentos de luta contra uma embolia implacável, apoiou e orientou, em perfeita e total lucidez, os colegas que o observavam.

Após o 25 de abril foram-lhe rendidas duas homenagens públicas, tendo o seu nome sido atribuído à Rua 8 e, em 2 de abril de 1987, à Escola Industrial e Comercial.

Espinho Vareiro, 14 de Fevereiro de 1992
// Vídeo Destaque